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O gesso seriado é uma das ferramentas disponíveis no tratamento conservador do equino, condição em que a criança caminha na ponta dos pés. Dependendo da avaliação clínica, pode ser considerado tanto para pacientes com paralisia cerebral quanto em situações de equino sem causa identificável e em crianças do espectro autista. O procedimento consiste na aplicação de um gesso sintético em formato de bota (técnica suropodálica), envolvendo perna, tornozelo e pé. O material utilizado é resistente o suficiente para que a criança sustente o peso corporal e caminhe normalmente durante o período de uso. Esse é o princípio fundamental do método: a deambulação com o gesso favorece o alongamento progressivo e contínuo do tendão, o que pode resultar em desempenho superior ao das órteses removíveis em determinados casos.
O gesso é trocado periodicamente — vem daí o nome “seriado” — e a cada nova aplicação o pé é reposicionado progressivamente mais próximo da postura desejada. Esse processo pode favorecer:
O período total de uso e o número de trocas são definidos individualmente, conforme os achados clínicos de cada avaliação.
Em linhas gerais, crianças com encurtamento do tríceps sural tendem a responder bem ao alongamento progressivo proporcionado pelo método. A avaliação do ortopedista pediátrico é essencial para determinar se o gesso seriado é a abordagem mais adequada para cada caso. Entre os cenários em que pode ser considerado, destacam-se:
Paralisia cerebral
Em crianças com paralisia cerebral (PC), a espasticidade do tríceps sural pode contribuir para a marcha em equino. Nos estágios iniciais, predomina a hipertonia muscular sem encurtamento estruturado. Com o tempo e sem manejo adequado, pode ocorrer encurtamento progressivo com impacto crescente sobre tornozelos e pés.
Nesse contexto, o gesso seriado pode ser associado ao medicamento injetável para controle do tônus, a critério médico. A evidência científica atual sugere que essa combinação pode apresentar resultados superiores ao uso isolado do medicamento.
Marcha em Equino Idiopática
Quando a criança persiste andando na ponta dos pés em idade mais avançada sem causa identificável, a avaliação especializada é fundamental para investigar outras condições e definir o melhor caminho terapêutico. O gesso seriado pode ser uma das abordagens consideradas nesse contexto, sempre após avaliação individualizada.
Crianças do espectro autista
A marcha na ponta dos pés pode estar presente em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Quando clinicamente pertinente, o gesso seriado pode ser aplicado de forma adaptada às particularidades sensoriais e comportamentais desses pacientes, sendo integrado a uma abordagem terapêutica multidisciplinar mais ampla.
Em crianças com paralisia cerebral, especialmente com acometimento bilateral, o manejo conservador cuidadoso pode ser importante para postergar ou, em alguns casos, evitar intervenções cirúrgicas. O músculo na PC tende a apresentar fraqueza e reduzida seletividade motora, o que torna o planejamento terapêutico ainda mais delicado.
O gesso seriado, ao promover o alongamento de forma gradual e controlada, pode contribuir para reduzir a necessidade de cirurgias precoces. A evidência científica atual aponta que o método pode apresentar resultados favoráveis em comparação a outras opções conservadoras, embora a indicação deva sempre ser avaliada individualmente.
Quando as abordagens conservadoras, incluindo gesso seriado, fisioterapia, palmilhas, órteses e medicamento injetável para controle do tônus, não produzem os resultados esperados, a intervenção cirúrgica pode ser avaliada pelo especialista. A decisão é sempre individualizada, considerando idade, tipo de acometimento, exame físico e, quando indicado, análise tridimensional da marcha.
Após uma eventual cirurgia, o gesso sintético também costuma ser utilizado no pós-operatório, e a deambulação precoce é incentivada conforme a evolução de cada criança.